Suor …. Brilho…. Novos desafios….
Chegada ao pódio coroa objetivos inciais, e propõe desafios maiores: permanecer entre os primeiros e surpreender mesmo estando em evidência.
Permanecer nos primeiros degraus do pódio passou a ser uma realidade recorrente das seleções brasileiras de handebol de areia nas principais competições da modalidade nos últimos anos. Esta cena aproxima o desporto de uma rotina vislumbrada por outras personalidades olímpicas do país. Julho foi o mês da confirmação do vôlei masculino com o oitavo título da Liga Mundial. O primeiro mês do segundo semestre corou César Cielo, homem mais rápido da natação nas provas de nado livre. No mesmo intervalo de trinta dias, outra constatação, desta vez vinda das areias.
Em jogo o World Games, que em importância fica atrás somente do Campeonato Mundial da modalidade. No último dia de competições, a bandeira brasileira permaneceu em evidência com uma medalha de ouro entre os homens e um bronze no feminino.
Mas, o que de fato pode entrelaçar o recente status, nas psicinas, nas quadras e nas areias? A trajetória dos atletas, a metodologia de trabalho e a preparação técnico-psicológica esclarece parte deste mistério. Em meio a tantas teorias, estes personagens ignoram favoritismo e pressão por resultados. Focados no trabalho e em uma preparação de qualidade, definem estratégias, estudam oponentes e permanecem em evidência.
No handebol de areia, um sentimnto do treinador da seleção brasileira masculina retirada do blog mantido por ele reitera esta argumentação. Com a serenidade e a sensatez de um campeão, Antônio Hermínio Guerra-Peixe faz questão de ressaltar que antes dos títulos e da briga pela supremacia nas areias de todo o mundo a seleção ficou em último no Mundial do Egito em 2004 e nos Jogos Mundiais da Alemanha em 2005.
E o mais importante: “estas participações sedimentaram os resultados seguintes”. (http://guerra-peixe.blogspot.com/2009/07/brasil-campeao.html). Inspirado neste exemplo de humildade e nesta consciência perpetuada pelo treinador, o portal do handebol propõe uma partida diferente.
O primeiro set já está concluído e recupera entrevista concedida pelo professor Guerra-Peixe durante a última etapa de preparação das seleções de handebol de areia para o Mundial de Cádiz, na Espanha no ano passado.
O conteúdo foi diluído em algumas matérias publicadas pelo site antes e ao longo da competição. Agora é a vez de apreciá-las na totalidade. Guerra-Peixe analisa os adversários na competição, pontua alguns pontos importantes da modalidade e das diferenças dela com o handebol desempenhado em quadra e mapeia pontos fortes e fracos de nossa equipe.
Acompanhe.
Entrevista concedida por Antônio Guerra-Peixe, técnico da seleção brasileira masculina de handebol de areia no dia 14 de junho de 2008.
Portal do Handebol: Guerra, quais são os principais objetivos para essa campanha do Brasil no mundial da Espanha? A equipe defende o título e agora na primeira fase a regra mudou um pouco, só dois dias se classificam.
Antônio Guerra-Peixe: O objetivo da seleção masculina é ser campeão. A manutenção do título é a nossa intenção em absoluto. Na verdade, os organizadores mudaram a forma de disputa, não é a regra, é a forma de disputa. Antes na fase preliminar classificavam quatro, agora se classificam dois, que fazem um cruzamento olímpico. Segundo contra primeiro e o outro primeiro contra o segundo.
P: E analisando as chaves da competição, o Brasil está na chave II ao lado de Egito, Paquistão, Espanha, Turquia e Líbia. Algum desses adversários preocupa mais, ou todos merecem cuidados especiais?
G P: A gente vai enfrentar logo de cara alguns países que tradicionalmente disputam a modalidade. Então na nossa chave temos o Egito que já foi campeão mundial, a Turquia que foi duas vezes vice, a Espanha ex campeã européia, uma equipe espetacular e que joga em casa. Essas equipes são as que naturalmente preocupam mais.
P: E projetando uma classificação para a próxima fase, e vendo o outro grupo, tem algum adversário que também preocupa? Ou quem quer ser campeão tem que passar por todos?
G P: Quem quer ser campeão tem que vencer todos e se preocupar com todos. Mas na outra chave existem também os países que tradicionalmente disputam a competição. Tem a Rússia com inúmeros títulos europeus e que é a atual campeã do continente, a Croácia que sempre fica entre os três, a Hungria que está sempre entre os cinco países em todas as competições e a Sérvia que ingressou recentemente na modalidade e já é vice campeã européia.
P: E falando um pouco sobre o Brasil, qual é a característica, o perfil do grupo que está aqui na Praia Grande?
G P: Em relação ao jogo, o grupo tem um perfil de velocidade, um perfil de atletas hábeis que jogam muito com bola aérea. Atletas que têm muita experiência de jogo, e um perfil vencedor. É um país campeão mundial, tetracampeão pan americano. Tivemos recentemente, a saída de dois atletas que fizeram parte de toda essa campanha, mas eram atletas que, no entendimento da comissão técnica, seriam substituíveis. E o grupo é muito bom, coeso, unido, forte, alegre, essa característica é ser brasileiro, a nossa maior característica é essa.
P: Depois de um certo tempo, jogadas consideradas plasticamente bonitas passaram a valer dois gols. Nisso você acha que a seleção leva vantagem pelo fato do brasileiro ser criativo e estar sempre disposto a desenvolver novas situações?
G P: Sem dúvida, a gente joga com a característica de um jogador especialista, que não é um grande arremessador. Arremessa também, mas não é um grande arremessador, é um jogador baixo, magro, e eles têm a característica de jogar com atletas muito fortes como especialistas que fazem gols que valem dois mais na base da força. E nós temos realmente essa característica da habilidade, do poder de inventividade.
Agora, todo esse conjunto, tanto de um lado como de outro, na hora do jogo se equivalem muito. O handebol de areia nunca tem uma definição do vencedor antes do jogo. Coisa que tem modalidades que você olha assim e fala que o Brasil não perde isso aqui, o basquete norte americano não vai perder esse jogo nunca. No handebol de areia não existe isso.
P: A coesão do grupo é um fator que dificulta ainda mais a sua missão de escolher os dez jogadores e ter que deixar quatro pelo caminho?
G P: É, sem dúvida, é mais um motivo de dificuldade e preocupação. O grupo é muito unido, se entendeu muito bem, já estamos com treze dias de trabalho com jogadores excepcionais, tecnicamente muito forte. E realmente é uma grande dificuldade.
P: Nas últimas competições o Brasil tem adotado um sistema para formação da seleção apoiado em seletivas regionais. Até que ponto isso é importante também para a visibilidade do esporte?
G P: É absolutamente favorável, porque nessas seletivas nós convocamos atletas de determinadas regiões. Então, favorece muito o crescimento do desporto, porque esses atletas que muitas vezes não tem condições de ingressar na seleção agora, voltam para os estados e são fatores de motivação, um elo de desenvolvimento da modalidade naqueles estados.
P: E um outro aspecto destacado foi o da modalidade não ter o favorito de véspera. Isso é explicado um pouco pela intensidade do jogo, os dois tempos, a dimensão da quadra menor (se comparada ao handebol indoor). Esses itens explicam a falta de prognósticos e justificam em parte o tempo de duração dos treinamentos, que são menores e mais freqüentes?
G P: São duas perguntas em uma, mas que não tem relação. O handebol de areia é imprevisível porque primeiro, se joga em sets. Então, muitas vezes não adianta você ganhar um set de trinta gols de diferença e perder o outro de um gol, se ainda tem uma decisão em um terceiro set de um contra o goleiro, o shoot out, que é um pênalti em movimento e muita coisa pode acontecer. Um vento na hora tira um gol, uma bola na trave, uma bola que escorrega da mão. Isso pode acontecer, já vimos isso. Equipes muito inferiores vencerem equipes fortes. Isso acontece.
Agora, eu acho que não tem relação com tamanho de quadra. Isso tem a ver com a estruturação do jogo, de ser nesse formato de set. E também a ver com a regra do jogo que permite uma superioridade numérica. Como acontece no handebol de quadra, você também pode jogar com sete na linha contra seis defensores. Na quadra também pode. Só que as distâncias são diferentes.
Quanto ao treinamento, já se recomenda há um bom tempo, que mesmo na quadra, se treine no máximo por uma hora e meia. O que a gente acentua muito, é o número de vezes durante o dia. No caso do masculino três vezes e do feminino treina duas vezes, mas com um número de horas maior. É a impossibilidade de estar com o grupo ao longo do ano e a necessidade de se trabalhar a questão física, a técnica e a tática. Então normalmente a gente divide os três treinos pelas três áreas para ser abordada. Durante a semana, a gente descansa alguns desses turnos, e durante o mês a gente tem dias de treinamentos que a gente suprime.
P: O calendário até a estréia em Cádiz já está definido?
G P: Bom, a gente tem uma definição dos atletas para o dia 20 de junho. Saímos para o Mundial no dia 2 de julho. Temos o início de um torneio internacional em Algeciras na Espanha, no dia 4, com término no dia 7. E o início do Mundial no dia 9 com término dia 13.
P: Os treinos aqui na Praia Grande prosseguem até a definição do grupo e do embarque para a Espanha?
G P: A gente continua em Praia Grande treinando três vezes por dia por uma hora e meia.
P: E agora falando do handebol de areia de uma forma geral, como você analisa a situação dele no Brasil? Em que nível a gente pode falar que ele está atualmente?
G P: O handebol de areia no Brasil está como o Brasil: em desenvolvimento. É uma modalidade que tem grandes possibilidades, tem possibilidade de mídia, tem possibilidade de inserções como já temos estado em que o handebol de areia está predominando em relação ao handebol. Não é nem um desejo nosso, eu acho que há espaço para todo mundo, mas infelizmente no Rio Grande do Norte o handebol de areia entrou e o handebol de quadra caiu muito. Não é nossa intenção essa, muito pelo contrário, eu também trabalho com o handebol de quadra. E o handebol de areia hoje se desenvolve em todos os estados, está crescendo muito. O título no World Games do feminino em 2005 foi importantíssimo para impulsionar. Depois os títulos masculino e feminino no Mundial do Brasil também contribuíram muito. E a gente avança na organização da modalidade no âmbito da Confederação Brasileira, com um campeonato nacional bem definido. As etapas também definidas. E só temos agora esperar. Até porque já existe um movimento na Europa para inserção da modalidade na olimpíada.
P: E tem alguma região que se destaca no handebol de areia pelo número de praticantes ou por algum trabalho desenvolvido?
G P: A gente é obrigado a admitir que a Paraíba hoje, com o título no masculino e o bicampeonato no feminino é o estado onde mais se desenvolve a modalidade. Lá a gente tem a oportunidade de trabalhar na Taça Kika, eu sou um dos coordenadores, e a competição reúne um número fantástico de praticantes da região nordeste. São equipes que treinam durante o ano e participam muito de torneios e campeonatos na areia, tanto que tem obtido resultados.
Eu entendo também que o Nordeste, assim como no vôlei de areia, o atleta nordestino tem a característica adequada para o jogo na areia. Eles são preparados para intempéries, como um sol pesado, areia, incômodo. O nordestino é um povo duro, um povo sofrido e eu acredito que essa seja a resposta para o sucesso deles.
P: Qual a importância de pessoas como a Cláudia Monteiro e o Paulo Roberto Martins para a evolução do handebol de areia, para a divulgação desse esporte?
G P: Eles vieram em um segundo momento, mas são importantíssimos. A Cláudia é uma pessoa que tem todos os méritos, trabalha muito. Trabalha no estado dela com a modalidade, é uma vencedora, técnica campeã do mundo, tem todos os méritos, é uma pessoa preparada, técnica de alto nível, uma pessoa fantástica. O Paulinho tem uma linha diferente. Ele alia a questão do trabalho técnico com a equipe, mas o grande destaque dele é na organização de competições. O Paulinho é o motor do handebol de areia no estado de São Paulo, ele vislumbrou essa possibilidade de crescimento da modalidade no estado, trouxe para cá e todo ano evolui de maneira absurda. E quando eu vi esse potencial dele, eu comuniquei a confederação da minha intenção de convidá-lo para trabalhar com a gente. O que foi prontamente aceito, porque ele foi um atleta de alto nível em quadra, como a professora Cláudia também foi, e tinha a simpatia de todos os responsáveis pela modalidade no país.
P: Como você vê o futuro do handebol de areia no Brasil. Quais as perspectivas ele apresenta para os próximos anos?
G P: O handebol de areia precisa se firmar como modalidade vencedora. Então a expectativa é que a gente consiga sempre se manter entre os vencedores em competições internacionais. Tem a expectativa da confirmação do crescimento, no âmbito nacional, das competições estaduais e levando ao crescimento da competição nacional. Eu tenho a expectativa de que a gente tenha um crescimento em número de competições para que os atletas se mantenham mais tempo na prática da modalidade. E também que a modalidade cresça num âmbito escolar e nas categorias de base, que muitos estados já estão fazendo, mas que a gente ainda não tem uma competição que reúna eles todos. Agora para coroar tudo isso, a nossa principal expectativa é a de que um dia a modalidade venha a ser uma modalidade olímpica.
P: Você acha que ainda falta um pouco de espaço na mídia para o handebol de areia, e por isso veio a idéia de manter um blog?
G P: Acho que não falta espaço para o handebol de areia na mídia. Falta espaço para todo o esporte que não seja o futebol. Eu adoro o futebol, mas acho que ou se aumenta o número de linhas dedicada ao desporto ou melhor se distribui isso. Porque a gente não pode viver sob a égide da monocultura do desporto. Isso aí é uma estupidez. Hoje temos o voleibol, que é campeão mundial e olímpico, o voleibol de areia, que é campeão olímpico e que não tem tanto espaço quanto o outro. Nós temos o basquete com uma longa trajetória de vitórias, temos tênis, automobilismo, inúmeras modalidades que se destacam no país, judô, e precisamos de espaço. E o handebol de areia também.
O blog nasce da necessidade de responder ao clamor, principalmente dos estudantes de educação física, que hoje já escrevem sobre handebol de areia. Na verdade nasceu mais por conta disso. Mas também atendendo a profissionais e atletas da modalidade que procuram ali saber alguma novidade da modalidade. E acho que de certa forma, humildemente ele está cumprindo. Estou um pouco afastado agora, porque a batida aqui é muito forte e tem pouco tempo, mas estou retornando.
em breve novo o segundo set e novas grandes jogadas…
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