Diego Melo
Na pátria de chuteiras poucos são os frutos dispostos a enveredar por outros caminhos. Não bastasse a tortuosidade e os desafios próprios de qualquer escolha, a opção ainda revela incompatibilidade com a atual configuração social, basicamente regida em termos esportivos por aspectos e comportamentos originados pela conjuntura futebolística.
Disposição e perseverança norteiam e amparam essa expedição no fluxo contrário à correnteza. Tão importante quanto à empatia e a afeição pela prática esportiva optada é a mobilização em concretizar ações para desenvolver a modalidade.
Não é exagero algum inserir Diego Melo de Abreu neste perfil. Ou mesmo transferi-lo a patamares ainda maiores, se o assunto for o handebol. Pelo compromisso assumido com o esporte e o afinco empregado na tentativa de gerar novos aficcionados, é possível intitulá-lo como embaixador do handebol.
Satisfeito por tratar do assunto de que mais gosta, Diego relatou ao portal do handebol qual o arsenal de argumentos adotados para convencer uma criança de menos de dez anos a ser seduzida pelo handebol. A relação deste esporte com a sociedade do futebol, seu programa de formação de novos atletas e o novo ambiente de trabalho também fizeram parte dessa partida.
E como exige a agilidade tática do handebol moderno, promovemos um rodízio defesa/ataque, colocando Diego como analista do atual momento do handebol brasileiro e das perspectivas para Pequim e para as novas gerações. O bate-papo ainda contou com a participação de outro atleta do portal do handebol. Vinícius Coltri ajudou a marcar nosso “viciado em handebol”, fazendo com que Diego escalasse uma equipe ideal, sob a perspectiva técnica, tática e plástica. E como bom treinador, nosso bola da vez não pensou em sete jogadores, mas em um plantel ideal.
Portal do Handebol: Qual o seu primeiro contato com o mini-handebol?
Diego Melo: O meu primeiro contato com o mini-handebol foi em 1999 em um campeonato em São Bernardo, o São Bernardo Cup que foi realizado no Pavilhão Vera Cruz. Eu lembro que as equipes do colégio que organizou esse campeonato iam muito para a Europa e os professores traziam algumas coisas do mini e apresentaram nessa competição, foi bem interessante, e esse foi o meu primeiro contato com a atividade. Depois na faculdade foi que eu comecei a estudar e pesquisar mais sobre o mini-handebol, porque depois deste primeiro contato não ouvia falar mais da atividade.
A Confederação Brasileira colocou em 2000 o projeto e tudo mais, mas ninguém falava muito, até porque a implantação começou mais forte na região nordeste e norte do país. Na época saiu um material apostilado e uns vídeos sobre o mini, mas era o começo de tudo mesmo, era tudo muito simples. Eu fiz o meu trabalho de conclusão de curso da faculdade falando do mini-handebol e quando estava no segundo ano da faculdade, isso em 2002, coloquei a atividade no colégio onde estou até hoje, que é o Integrado Americano em São Bernardo, e isso me ajudou muito a começar a pesquisar mais e me aprofundar no assunto.
P: Você teve que adaptar esse material apostilado e estes vídeos à realidade brasileira, ou foi possível aplicá-los da forma em que eram encontrados?
D M: Uma coisa que eu sempre fiz foi adaptar exercícios e sempre criar muito, porque, nas as apostilas passam tudo de forma geral, e mais, muitas coisas que são feitas para os padrões europeus, inclusive no contexto europeu. Uma coisa que eu critico é quase a cópia que a Confederação Brasileira fez do manual da IHF. Poxa vida, eu acho que é pouco. Claro que a IHF é referência, mas poderiam ter conteúdos voltados para o nosso contexto, entendeu? É melhor dar uma adequada, eu não sou a favor dos caras darem uma fórmula pronta de exercício e sim uma coisa mais embasada, com objetivos e intenções.
Por exemplo, eles falam bastante dos objetivos do Mini-handebol, que ele serve para isso, serve para aquilo, ótimo. Mas quando eles mostram os exercícios somente colocam uma breve explicação sem os objetivos, sem explicar, por exemplo, o que podemos e o que devemos desenvolver nessa criança, para que fase do mini-handebol aquilo é ideal. Então, acho que eu usei poucos exercícios daqueles lá, sempre fui pesquisar fora e dei uma adaptada.
Uma vez em um treino, eu ainda fazia faculdade, escutei de um técnico que “se você tem o objetivo é só criar o exercício” um pensamento, (estralando os dedos) sabe, tão lógico, e falei “é verdade”, então se eu quero fazer tal coisa, faz o exercício, cria você, não precisa ir lá na apostilinha, é melhor que o professor saiba o objetivo da aula, de cada exercício, leia o PCN (Plano curricular Nacional), vá saber o que Piaget, Wallon, Freire tem a dizer das crianças dessa faixa etária. E as apostilinhas, até então… agora que saiu uma melhorzinha aí de mini-handebol que é da EHF, na verdade eu acho que até agora é a melhor. Sinceramente acho fracas as apostilas de mini-handebol, claro a que a idéia da filosofia, dos princípios, tudo bem explicadinho, bem simples, até porque acho que é para todo mundo entender. Mas eu sempre criei, assim como eu crio os artigos do portal [do handebol] eu sempre fui atrás de pesquisar e fazer as coisas para o mini-handebol por analogias.
P: O mini-handebol é uma ferramenta importante neste trabalho de fazer a criança, ainda mais numa idade relativamente baixa, gostar do handebol e em um país quase que exclusivamente focado no futebol, com uma cultura fortemente enraizada nessa perspectiva?
D M: É exatamente isso que eu falo na abertura da minha monografia da pós-graduação de Educação Física Escolar e que eu brincava na outra, na pós de handebol que eu estava fazendo em Londrina, estamos no país do futebol e temos a missão de fazer com que crianças deixem o futebol de lado para jogarem um esporte que não é tão popular assim, que não está na TV aberta toda hora e que mal sai no jornal.
Em certa aula na pós a professora em um dos momentos da aula falou que a iniciação do handebol é a partir dos dez anos. Eu levantei a mão na hora, e disse “professora discordo” ai ela disse que “Ah, mas porque, antes é muito cedo e não sei o quê, a criança tem que brincar.” Eu falei “para isso é que existe o mini-handebol, com dez anos, você me desculpe, a gente está no Brasil, o moleque já está com seis anos de futebol nas costas já e, inclusive, disputando campeonatos e torneios no clube, na rua, no colégio. Aí eu falei para ela que lá no colégio onde eu trabalho eu começo cedo com o handebol e as crianças vão para a aula de mini-handebol com aquele sorriso no rosto sempre porque a aula é lúdica, e eles, sempre alegres de estarem indo brincar e eu sempre sorrindo, sempre com roupa de handebol, trato o handebol como a coisa mais bonita do mundo, falo com gosto da modalidade, incentivo a eles acessarem sites, verem jogos, porque se eu não for “o cara”, “o professor”, o cara que eles mais gostam, e minha aula não for a melhor, chega um professor mais ou menos de futsal e já leva eles. Porque o pai deles gosta de futebol, o futebol está toda hora na televisão, com 4 anos de idade o menino já torce pra algum time e eu, sinceramente, como louco por handebol e professor apaixonado não dou nem a oportunidade deles gostarem do futebol. Eu tenho muito argumento bom para poder fazer eles desistirem do futebol.
Um, é assim, falo: isso, vai lá jogar futebol, tem 500 moleques lá para treinar, todo mundo treina e cinco vagas. Você vai ter que ralar muito por uma vaga, e aqui no handebol todo mundo pode revezar toda hora e você tem mais chances de jogar. Uma que a chance dessa criança jogar e brincar mais já faz pensar muito.
Outra é mais ou menos assim que eu falo para os moleques. O que você mais gosta no futsal? E geralmente eles respondem “De fazer gols!” e ai é que entra a argumentação mais forte, porque eu pergunto “Quantos gols você marcou no jogo de futsal, qual o máximo que você já chegou?” Ai ele responde “É, uma vez em um campeonato quando estava fácil, eu marquei três!”. Ai eu digo “Pô, parabéns… Mas veja só como ainda não está bom…”, aí eu chamo os meninos que eram do mini, hoje jogam na Metodista e estudam lá no colégio “Ô Fulano, ô não sei quem, vem cá, deixa eu fazer uma pergunta pra vocês… O último jogo aí, quanto gols você marcou?” Daí eles falam 13, 8, 5. Aí eu digo, “Está vendo, o seu amigo aqui marca oito, nove gols por jogo. Chega em casa e fala, “aí mãe marquei nove gols”, e você fala “aí pai marquei um golzinho, hoje não marquei nenhum”. Isso é pegar pesado pra conquistar os alunos mas dá resultado porque tudo isso que eu disse é verdade. Fazer o gol, para eles é o máximo. Porque o que é mais legal no futebol? É marcar o gol, é ser o artilheiro, ser o centro das atenções e no handebol os caras estão mais propícios a isso e marcar o ponto, o gol nessa idade deles é sensacional é sinônimo de sucesso.
Uma coisa que eu percebi é que falta o ídolo pra eles. Falta aquela coisa que o futebol tem dele falar “quero ser o Kaká, quero ser o Rogério Ceni” e um incentivo grande pra eles é o de ter contato com os ídolos do handebol e eu faço esse trabalho de levar eles até as crianças, referencias para perto deles, pois como nós estamos em São Bernardo eu tenho essa facilidade, até por eu ser amigo de todos os atletas e sempre levo alguns atletas de apelo, o Maik, Japa, Pré, Diogo, Adalberto, David, nome forte, não é qualquer um não, eu levo os caras que estão lá no Pan-Americano, que estão nas equipes de ponta e que vão para a seleção para a molecada ter contato. O ídolo fazem eles quererem mais. Eu já vi um menino falar assim “Pô quando eu for goleiro eu quero ser igual o Maik”. Eu lembro na época do colégio que o Maik foi meu estagiário, ele ficava dando autógrafo o dia inteiro, não conseguia nem fazer o estágio direito. Daí as crianças no gol falavam que eram o Maik. Defendiam e falavam: “Maik!!!”. Igual falavam Rogério Ceni, Marcos… Isso pra quem é do handebol é maravilhoso.
E este tipo de professor de que falo, até é um dos tópicos da apostila da federação, o professor ser carismático, ser entusiasta, sabe. Chegar na aula abafando, não é boa tarde (tímido), é boa tarde (aos gritos) galera, é handebol, é o momento mais legal da semana! É você explicar e fazer os moleques darem risada, entenderem, ser paciente e além de tudo fazer com que a aula seja mais legal do que nunca.
P: O fato de estar em São Bernardo como você coloca, somado aos resultados conquistados pelas equipes da cidade te ajudaram a implantar os projetos de mini-handebol e tentar ampliar a aceitação da modalidade nas crianças pequenas?
D M: Eu acho que ajuda sim. Eu não posso dizer com certeza, se eu estivesse, por exemplo, em uma cidade do interior do Mato Grosso se seria tão fácil implantar o mini-handebol, quanto foi aqui em São Bernardo. Por que, como eu falei aqui eles tem perspectiva de crescimento, uma perspectiva mais de sucesso. As meninas vão lá para o MESC, para a Metodista, os meninos vão lá para a Metodista, pro IMES que é na região.
Esse trabalho que falei de sempre levar jogadores das equipes de ponta aqui, fica fácil, nos festivais de mini-handebol, chamava alguns jogadores da seleção, davam entrevista para os pais, autógrafos, sabe, e claro com bastante jogos e brincadeiras. Ai eu penso “em que cidade que eu teria oportunidade de fazer isso?” Na pós agora eu estou vendo, por que tem cara de Manaus, cara do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e eles mesmos falam “Poxa, em um festival assim você leva os caras da seleção”, então, vendo tudo isso, o contexto, acho que fica mais fácil sim.
P: O atleta iniciado no mini-handebol tem uma formação diferenciada? Por que além deste aspecto da brincadeira, do lúdico, o mini-handebol possibilita trabalhar em um menor espaço essa questão do fundamento e da técnica?
D M: Na verdade, a questão do espaço nem é tão mais importante. O espaço é reduzido porque eles são pequenos, e tudo no mini é adaptado pra eles. Mas em relação à parte de desenvolvimento global eles saem muito bons, claro que, respeitamos as limitações e características de cada criança, mas no geral os alunos vão para o mirim aptos a começarem a jogar o handebol. Tudo o que a gente pode desenvolver na criança nesta faixa etária o mini-handebol pode colaborar, porque as aulas também não são engessadas, só aula com bola. Tem equilíbrio, brincadeiras, atletismo, tudo lúdico e em cada faixa do mini-handebol, por exemplo, dos seis anos a sete anos, a gente visa desenvolver isso. De oito a nove, isso aqui. Só em seis anos, mais isso do que isso. A gente tem, mais ou menos, tarefas a cumprir. Para que cheguem lá com nove anos, como os meus alunos, no mirim, eu se quiser dou tático para eles. Que nem o [Vinícius] Coltri [atleta da equipe de handebol da Faculdade de Direito de São Bernardo] disse em um campeonato onde ele foi com as equipes do colégio, os moleques sabem o que é defesa 3×2x1; 4×2; 3×3. Não que eles façam isso no mini-handebol mas eles já tem noção.
Mas com certeza eles chegam melhor não só para o handebol, meio que para tudo, por que entra a parte de socialização, de disciplina, respeito, cooperatividade, desenvolvimento cognitivo, convívio em grupo. E eu considero excelente o trabalho.
P: Então, quer dizer que o mini-handebol promove o desenvolvimento geral do atleta, e ao mesmo tempo, permite com que ele desenvolva as habilidades de jogo em um espaço compatível ao seu tamanho, para só em seguida promover a transferência para um ambiente de jogo competitivo?
D M: A questão do desenvolvimento motor no mini-handebol é muito ampla e chega até a utilizar outros esportes. Nós realmente visamos atingir a maior gama possível de desenvolvimento global nas crianças porque além delas estarem preparadas para o próximo passo, que é o handebol propriamente dito, eles com certeza devido aos ensinamentos do mini, vão ser pessoas melhores de lidar, melhores cidadãos futuramente.
A questão da competição é tratada com extrema cautela e a vitória e a derrota são minimizadas, não exaltamos quem ganha tampouco deixamos de lado quem perde, a palavra de ordem no mini é “vamos brincar e tentar fazer o nosso melhor”. Frequentemente eles me perguntam “professor, que ganhou o joguinho?” e eu já digo “Uma que eu não sei, outra que não me interessa. Você jogou bem? Está feliz? Quais observações quer fazer sobre o jogo?” e assim vai. Eles se acostumaram a nem contar placar de nada por que sabe que eu não gosto e também não ligo, porque sempre exalto aqueles que têm boas atitudes gerais.
Uma coisa até que uma menina aluna minha disse em um vídeo é que “o mini-handebol é bacana porque tem tudo o que eu quero. Eu brinco, corro eu faço gol, estou com os meus amigos, o professor é legal.” Então, junta tudo o que eles gostam e eles ainda sentem-se prestigiados pelo professor, que eu dou jeito de achar uma coisa boa para elogiar em todos, claro que pontuo aquilo que dá pra melhorar ou tem que mudar, mas sempre dou um jeito de elogiar.
P: E esse trabalho desenvolvido com o mini-handebol fornece atletas com maior consciência de jogo, pela combinação entre o lúdico e o aproveitamento do espaço, para suas equipes, mirim, infantil e cadete no Integrado?
D M: Eu tenho um time lá, que agora é infantil. Todos eram do mini-handebol, e é muito mais fácil trabalhar com eles. Uma que eles já sabem exatamente o que eu vou falar para eles, o que eu gosto, ou qual é o proceder, como é a filosofia, de fazer o melhor e não a de ganhar. Vamos fazer o nosso melhor, ganhamos? Ótimo. Não ganhamos? Fizemos o nosso melhor. E de não levar o esporte tão a sério. Fazer do esporte um meio de qualidade de vida, de ser feliz. Deixa para se preocupar com o esporte, se vocês forem atletas profissionais, se vocês forem viver disso, como eu vivo.
Mas da parte técnica, defensiva, eles tem muita mobilidade defensiva, principalmente pelas brincadeiras, eles têm muita facilidade de se locomover lateralmente, diagonal, de costas. Da parte ofensiva é muito bom também, porque eu estou trabalhando com o que o Jordi [Ribeira] fala muito, que é ocupação de espaço vazio, muita variação de finta, passa e vai, e mesmo no mini-handebol, eles brincando já fazem isso, eu já passo esse conceitos. E isso aí dá uma facilitada. Porque mesmo se você não colocar nenhum tático para os moleques, eles atacam no espaço vazio e passam. Sai um engajamento meio que naturalmente.
Eu sempre mandei muito aluno meu do mini para os clubes aqui do ABC, como a Metodista e o MESC e os técnicos sempre elogiaram muito as crianças.
P: Então você chegou a apresentar o seu trabalho do mini-handebol para o Alberto Rigolo na Metodista. E qual foi o retorno dele?
D M: Eu tinha falado ao telefone com ele, há umas duas semanas já. Então, ele já sabia mais ou menos o que eu ia apresentar, já me conhecia, já sabia que eu tinha faculdade lá, que já tinha feito parte do time, já tinha me visto em campeonato contra equipes da Metodista, e quando eu fui falar com ele, segundo ele mesmo, a resposta já estava mais ou menos pronta. O Alberto é muito decidido, não tem meias palavras. Isso aí é bacana eu admiro muito isso nele, porque ele é sincero e mostra convicção nas coisas que faz.
Levei meu laptop, mostrei lá para ele uma gama de coisas. Fotos, meus artigos, meus trabalhos de monografia, alguns vídeos, vídeo do festival, um manualzinho que eu tinha feito, tenho bastante material do mini-handebol. Ele virou para mim e falou assim “Olha, a resposta já está formulada… fecha esse negócio porque o seu trabalho eu já conheço, vamos ser mais práticos. A resposta já está pensada há uma semana, goste você ou não. Eu gostei de tudo o que você me mostrou, e foi só para reforçar o que eu vou falar. Parabéns, você é o novo coordenador e professor de mini-handebol da Metodista. Você vai combinar seus dias de trabalho com o Rogério Totó, vai trabalhar assim, assim, assim.” E eu [comemorando discretamente] assim, “deu certo!”. E ele orientando. Ele levantou [bate a mão simulando um aperto de mão] seja bem vindo, além dessa camisa laranja, que é a do Integrado, você vai começar a vestir a da Metodista. Mal sabe ele que eu sempre vesti, porque eu torço pela Metodista desde os 14 anos. Nunca torci para time de futebol nenhum. Os caras me perguntam, que time de futebol você torce. Respondo “para nenhum, eu torço pela Metodista serve?”.
E foi isso, saí de lá, liguei pra minha família contei tudo, liguei para o meu amigo aqui [aponta para seu atleta Vinicius Coltri] para contar. Foi um desses momentos impagáveis da vida sabe, tipo ganhar um campeonato, entrar numa faculdade, é um dia que eu nunca mais vou esquecer. Desde então, está tudo certo. Falei ontem [23 de abril] com o Rogério Totó para acertar o início do projeto, os locais, como ia ser, o que ia precisar. Comuniquei a intenção de fazer um manual de mini-handebol da Metodista, porque tem um peso e vai ajudar muita gente ter um manual decente pra trabalhar.
P: Este contrato permite utilizar o potencial de atração da instituição Metodista para captar e ampliar o número de atletas formados seja na região do Grande ABC ou das outras localidades contempladas com os projetos sociais da equipe?
D M: Eu tenho certeza de uma coisa. Isso daí eu falo sem sombra de dúvida. Se por um ato isolado meu, em uma escola particular que é o Integrado, eu já fornecia entre cinco e nove atletas para o mirim da Metodista, este número agora vai triplicar ou quadruplicar. Eu tenho certeza que o mirim da Metodista depois da chegada do mini-handebol e, consequentemente, depois o infantil, o cadete, vão ter muito mais atletas de qualidade. Não que não tenham, muito pelo contrário, mas, por exemplo, o mirim que eles tinham iam até o técnico que hoje é o Hula, o Viomário, e chegar lá e fazer meio que um trabalho de base, já vai estar tudo mais ou menos tudo preparado. Eu vou mandar os meninos igual eu mandava do Integrado, meio que prontos pra jogar e lá eles já vão estar em um ambiente propício para isso. Lá eu vou ter a facilidade de eu chamar um cara do time e já ter um cara da seleção para as crianças se espelharem.
E outra que deve facilitar em todos os sentidos. Uma pela divulgação. Claro que a Metodista vai começar com um pólo, dois, depois vai crescendo. Mas a divulgação do mini-handebol pela Metodista, se for duas vezes maior do que já tinha no Integrado, porque eu só posso divulgar no colégio, não é uma coisa aberta para a comunidade, já vai render mais frutos, já vai melhorar. Por que eu vou continuar mandando os moleques do mini-handebol do Integrado para a Metodista e mais os que estou formando lá dentro. Então o mirimzinho lá vai bombar de gente, e de qualidade, vindos do mini-handebol.
P: E voltando um pouco à questão do mini-handebol, como é feito o trabalho com o goleiro? A posição tem exercícios e uma preparação também diferenciada?
D M: Mais ou menos, pois todo mundo pode ir ao gol. Tanto é que as crianças , assim como eles fazem na rua, que a gente trabalha com atividades e jogos de rua, fazem o “levou gol vira goleiro” e se a criança não quer, não gosta, tem medo da bola, a menininha principalmente, as meninas geralmente tem mais medo, aí a gente fala, “não, não precisa ir no gol”. Mas todo mundo passa pelo gol, todo mundo pode ser o goleiro, não precisa de um uniforme específico, nada. Time de colete vermelho contra time de colete azul, a hora que quiser; uma coisa organizada “Professor posso ir agora? Pode!” Os moleques não precisam fazer aquelas trocas, é só ir, o outro vai para a linha e acabou. Mais para o último ano do mini-handebol, aqueles que já se definem goleiro, que tem uma hora que o moleque já fala, sou o goleiro, ele tem toda a base de um jogador de linha, mas ele começa a ter alguns ensinamentos, como posicionamento básico, defesa simples, defesa média, baixa, defesa alta, média, enfim, ele já começa a ter essas noções, até um pouco de abertura em “X”, que a gente brinca, coloca o banquinho lá e os moleques pegam e saltam. Tem criança que assimila bem isso. Tudo meio que fazendo brincadeiras, mas já dando um específico para o menino que já tem um gosto maior por ser goleiro.
Mas não adianta eu achar que todo mundo vai ao gol. Eu mesmo tinha medo. Uma, ele precisa falar: eu quero ser goleiro. Você vai levar bolada, ele vai falar “e daí?” Precisa ser um cara corajoso, precisa estar disposto a isso. Se o moleque está disposto, já vamos pegar ele e vamos começar a trabalhar já, porque não é todo mundo que quer ser.
É igual canhoto, canhoto eu não deixo no gol não [rindo]. O menino fala pra mim “Eu sou canhoto, mas eu sou goleiro.” Eu na hora já digo, “não, você não é goleiro, goleiro tem um monte destro aí, vem para a linha pelo amor de Deus. (risos)”.
P: Essa formação deles, essas brincadeiras, esse deslocamento facilita a vida dos que se definem goleiro, pelo fato dele ter um maior trabalho de perna, de movimentação, ou até mesmo essa maior consciência tática do jogo?
D M: Esses meninos que eles passam pela linha e fazem essas brincadeiras, uma que eu percebo que eles não têm medo assim de se jogar na bola devido às brincadeiras. Eles também não tem medo da bola porque no mini-handebol ela é mais fofinha, quando ela bate no corpo não dói tanto.
Deslocamento lateral eles têm muito, principalmente no último ano com nove, dez anos, eles têm muita lateralidade, o problema é só o tamanho, mas as traves do mini-handebol são adaptadas, a altura menor da baliza, principalmente para o goleiro é importante adaptar com pedaço de madeira, uma corda, uma faixa, porque se não o moleque chega em casa e fala pra família “não quero ser mais goleiro não, tomei 13 gols hoje, porque não alcançava a bola.” É essencial nessa fase passar por todas as posições, porque é a fase de experimentar e ampliar o repertório geral, nada específico.
P: Você dirige times mais velhos, como o da Faculdade de Direito de São Bernardo, em que aspectos o trabalhar com o mini-handebol ajuda na tarefa de lidar com o lado psicológico, numa pedagogia com os atletas mais velhos?
D M: Paciência que eu adquiri dando aula para as crianças é incrível e com os atletas do juvenil, junior, adulto não é diferente. Claro, que os problemas são outros, mas eu observo que problemas de relacionamento, de conduta às vezes são até meio parecidos. Poxa vida, o problema que o pessoal do mini-handebol tem o pessoal do adulto também tem (risos) até porque são pessoas diferentes. Eu percebo um negócio, os meus alunos quando saem do mini-handebol, no mirim, no infantil, tem poucos problemas gerais. Talvez, o meu time no adulto seja assim porque eles não foram do mini-handebol um dia (risos). E, claro são pessoas de diferentes escolas e diferentes partes do país, outras cidades. Para mim é mais fácil estar todo mundo junto, mas a parte de ser paciente, de ser didático, de explicar tudo nos mínimos detalhes e de forma bem clara, eu acho que isso aí ajuda. Até na hora de tratamento porque leva tudo com bom humor, é mais agradável para eles estarem treinando.
Claro que tem hora que você precisa ser um pouco mais rígido e eu percebo que eles exigem isso de mim, do técnico pegar um pouco mais forte e dar uma chamada mais dura para o cara sentir meio que obrigado, motivado, pressionado a fazer alguma coisa. Mas, principalmente, a parte da paciência, o mini-handebol ajuda muito para o adulto.
P: E nos treinamentos, você transfere alguns conceitos do mini-handebol, principalmente na execução de fundamentos e trabalho em espaços menores, para o treinamento do adulto?
D M: Na verdade o handebol é um só. O que a gente passa no mini-handebol, até na segunda fase do mini, são conceitos até avançados de handebol. Os conceitos básicos do handebol são os mesmos, desde o mirim até o adulto. Porque o conceito de passe bom é o mesmo para todas as categorias, o de arremesso também, e na verdade fica mais fácil para eu lembrar os adultos destes conceitos básicos porque eu estou em contato com eles todos os dias;
Talvez se eu não desse aula para o mini-handebol, esses conceitos iam meio que se perder, esses conceitos básicos. O feijão com arroz ia passar e a gente ia ficar só no tático. Pô, por que o tático não vai para frente? Porque não tem passe, porque o atleta erra o arremesso, etc. O meu time no adulto joga muito simples, eu não coloco muita coisa tática e eu até explico para eles, não posso ainda dar um tático muito avançado se os fundamentos básicos não funcionam. Então, é um trabalho baseado em conceitos simples, a maioria dos conceitos que o mini-handebol vê, o mirim vê, eu ainda passo na faculdade.
P: Então nesses treinos com o adulto você foca muito o que o Bernardinho costuma priorizar na seleção de vôlei masculino que é valorizar muito a execução adequada dos movimentos para em seguida introduzir novas preocupações e estratégias de jogo?
D M: Com certeza, estava vendo um jogo esses dias, que era Suécia e Alemanha na final da Euro 2002, e eu estava vendo que a Suécia se tinha movimentação, eram movimentações muito simples. É um cruzamentinho aqui, outro ali, mas o que diferenciava mesmo o time da Suécia eram os conceitos básicos ofensivos e defensivos bem feitos. Rodava a bola uma vez, chegava um peão, que era o Olson, ou o Magnus Wisllander, e arremessava. Claro, de modo muito técnico, aquele Stefan Lovgren sensacional, mas eu falava, cadê o tático destes caras? Porque na hora do vamos ver, um, dois, três, subia, esperava definir e fazia o gol ou ia para o um contra um e gol e aí você mostra um vídeo desses para os atletas ou para os alunos e eles falam “Nossa que handebol simples!”, parece simples, mas esse é o psicomotor. A psicomotricidade faz com que os movimentos sejam feitos de forma natural, a mais natural possível, e aquele time da Suécia é perfeito para explicar isso, por isso que eu pego tanto no pé em fundamento, é claro que tem movimentação bacana para fazer que ajuda, até para dar uma suprida nessa falta de fundamento. Movimentações simples para o time fazer um gol, muitas que abrem a defesa, mas que se tiver o fundamento nem precisa.
Eu preconizo muito isso, um handebol simples, mas eficiente, porque não adianta nada toda aquela jogada que a gente estudou três anos, e que é toda avançada e não sei o que, por causa do cara passar errado não dar certo.
P: E, guardadas as proporções, as estratégias para convencer as crianças a gostarem do handebol são as mesmas aplicadas com os jogadores, ou possíveis atletas do adulto?
D M: É um pouco diferente. Na verdade, a estratégia adotada com as crianças é fazer elas gostarem do esporte literalmente, mostrar o esporte e fazer com que elas gostem do esporte. Com o treinamento do handebol, principalmente no adulto, o pessoal já vai porque gosta…
P: Mas, e para captar algum atleta, essas ações ajudam?
D M: É difícil, ainda mais trabalhando em uma faculdade que não é de Educação Física. É uma faculdade de uma área específica, que é o Direito. Quem vai para o time, com certeza ou já jogou no colégio, ou já teve algum contato com alguma coisa e gosta do esporte por algum motivo. Talvez, por exemplo, na Direito São Bernardo, onde a modalidade está tendo êxito, está aparecendo mais, até porque a coisa está mais organizada, os dois últimos JUD [Jogos Universitários de Direito] nós ganhamos, o JUD Nacional também, eles sabem que a gente treina. Talvez essa visibilidade, esse respeito que a modalidade conquistou dentro da faculdade atrai alguns freqüentadores…
Vinicius Coltri: O jeito que eu vejo o handebol na Direito São Bernardo, a gente vai para os Jogos, como o JUD que a gente foi campeão ano passado, do nacional e do estadual, a torcida, até pelo jeito que é o esporte de ter muitos gols, a torcida participa muito. A bateria sempre participa muito. De todos os campeonatos que eu joguei, teve um que infelizmente a gente perdeu o primeiro jogo, e mesmo assim a bateria estava lá. Era no meio da tarde, o pessoal poderia estar fazendo outras coisas, e estavam lá torcendo pela gente. A diferença que eu vejo do handebol na nossa faculdade é isso. E o pessoal é uma família mesmo, a maioria é amigo que sai todo dia, no mínimo uma vez por semana a gente vai comer juntos, está sempre junto. E isso às vezes atrai. Um cara que é amigo nosso, mas não jogava ele vai lá para começar a jogar. Isso daí às vezes também acontece.
D M: Dentro da faculdade na verdade tem umas três variantes para o cara jogar. Uma é o cara já gostar do esporte e, dizer “beleza, vou jogar porque eu já gosto”. Outra é o cara se enturmar, fazer amigo e ter êxito em uma atividade dentro da faculdade. Porque essas coisas esportivas dão visibilidade para o cara dentro da faculdade, o cara é do time campeão, está lá nos Jogos, a parte social dele tende a melhorar. Outra, eu já vi muita menina, principalmente fazer por fazer uma atividade física bacana. Aí a gente orienta meio que como professor de educação física e não como um técnico. Porque ela fala eu não vou jogar, estou aqui só para treinar. Esses são as três principais variantes que fazem a pessoa deixar sua casa em um sábado a tarde e ir treinar handebol, e é assim que a gente capta atletas, fazendo um trabalho bacana.
Um dos fatores que ajuda a captação de alunos são os títulos, o êxito, porque ninguém vai para onde o negócio está ruim. Por exemplo, se o time de basquete está uma porcaria, “ah eu vou lá… Vai lá por quê? A não ser que você ame muito a modalidade” Ai o universitário pensa “O time de handebol? O time de handebol está disputando o nacional, vários campeonatos. Tem um técnico, uniforminho bonitinho, vou ver qual é que é. Vou experimentar.” Eu já vi muitos caras fazerem isso. Tem cara que não agüenta, porque já é um ritmo um pouco mais acelerado, mesmo a faculdade. Mas, esses são os motivos da entrada de um atleta na equipe da faculdade.
P: E até por isso, por essas origens diferentes, atletas enturmados ou aqueles que jogavam pelo colégio ou eram federados, é fundamental trabalhar primeiro o fundamento e a técnica individual para elevar o padrão de homogeneidade e coletividade da equipe?
D M: Na verdade a gente não pode, por exemplo, olhar só para os melhores e trabalhar com isso. Nós temos alguns atletas como o Coltri, jogou na Metodista, o Vitor joga no Imes até hoje, o Felipe foi goleiro da Metodista, teve outros também que treinavam em escola, mas no primeiro momento que eu peguei o pessoal para treinar eu não sabia quem eu tinha na mão. Não sabia quem era federado, quem não era, na mão de quem passou, aí você coloca um treino meio que geral, indo do geral para o específico e procurando corrigir, por exemplo, eu trabalho em cima de objetivo como o passe. O passe dele está bom, o passe dele está bom, o passe dele está ruim, corrige, e assim nos vamos trabalhando, corrigir uma coisa, lógico continua com isso aí, continua com a manutenção desse fundamento e a gente vai para outro.
É complicado, demora um pouco mais, é um trabalho segmentado e de paciência. Eu montei uma planilha para esse ano exatamente para chegar nesse final de semana [26 e 27 de abril] deixando tudo certo para atingirmos o ápice da forma geral neste final de semana e nós temos que agir dessa forma, pensando em todo mundo, porque, por exemplo, têm quatro caras bons no time, dois ruins. Passa a bola para esses ruins, eles acabaram de ferrar com esses outros caras bons, não adiantou nada. Tem que trabalhar todo mundo, deixar todo mundo que nem você falou, homogêneo. Claro, que vão ter os destaques, porque o cara que já sabe passar, ele já sabe passar, já está um passo à frente e treinando a tendência é melhorar. Mas aquele cara que não sabia, pelo menos já vai estar apto a jogar com esse cara que tem um pouco mais de conhecimento, de desenvolvimento no esporte.
P: Como encarar o desafio no trabalho com times de faculdades em montar novas equipes a cada ciclo de cinco ou seis anos, em virtude da perda de atletas. E, ao mesmo tempo, desenvolver ações para parar e surpreender adversários tradicionais naquele período de tempo específico, que têm pontos fortes e fracos já detectados e também estudam seu time?
D M: Em relação a captar atletas, a gente já está começando a vivenciar isso, porque eu estou há um ano lá só, e eu já havia pensado, que essa geração uma hora vai sair da faculdade, se não fizerem pós [graduação] eles vão deixar o time de handebol. Mas a gente conta sempre com o pessoal vindo de vestibular. A minha sorte é que o handebol, hoje em dia está crescendo muito e é um esporte muito praticado em escola, principalmente em escola particular, que é o perfil da Direito São Bernardo, se não me engano.
Claro, que vem aluno de todos os cantos, mas pelo menos lá no time, a maioria era atleta de colégio particular e grande parte, mais de 80% do pessoal estudou em colégio particular ou de São Bernardo ou do ABC, mesmo do interior e tudo mais. Mas a captação de atletas, eu vou fazendo assim, você torce para que alguma pessoa que faça o vestibular tenha contato com o handebol, e a probabilidade disso acontecer hoje em dia é grande, por causa do crescimento da modalidade.
Em relação aos times, dos mesmos campeonatos, é verdade, complica mas nem tanto. Por exemplo, no JUD, que é os Jogos Universitários de Direito, a gente já sabe mais ou menos com quem vai fazer a final, a semifinal, quem que é bom quem que não é. Não tem muitas surpresas. Dos dois lados. Os caras sabem que o chumbo vai vir grosso do nosso lado, porque talvez as nossas equipes sejam a única que treina sério e se dedica, e eles sabem mais ou menos quem que joga. Isso é ruim. A gente tem que fazer tático e tem que fazer estratégia, principalmente de mudar jogador de posição e de não entrar com o mesmo time toda hora para surpreender, porque sendo aquilo lá que eles já sabem, eles vem com o esquema tático certo, ou não também. Mas fica uma coisa interessante igual no futebol com Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, todo mundo já mais ou menos conhece e aí entra a parte tática, superação e de rivalidade, é uma coisa gostosa.
Em relação aos outros campeonatos, não muda muito. Por exemplo, a Liga ABC, que nós jogamos, ou a São Caetano Cup a gente não sabia o que a gente ia encontrar pela frente, nem eles. São desafios novos, a gente vai jogar e não sabe o que espera. Vence quem tem o melhor handebol, quem está mais preparado física e taticamente, quem tem mais tempo de treino, é o conjunto de tudo. Isso aí é legal, mas os dois tipos de campeonatos são bacanas, um para a gente ver a quantas anda o nosso tático e outra para a gente ver o nosso geral e trabalhar sempre pra tentar consertar os erros e melhorar onde dá.
P: Agora, o Diego que analisa, que gosta do handebol, para responder essa questão. O que falta para o handebol atingir uma espécie de boom e promover a transição entre os inúmeros jovens praticantes das escolas, faculdades e colégios para a carreira profissional nos clubes?
D M: Isso é uma coisa que a gente sempre conversou entre os técnicos. Eu estava conversando com o Jean Carlos [Ramires] que era o técnico da Unifil, hoje Unopar, falta o Brasil ganhar uma medalha de expressão, uma medalha olímpica, seja no feminino seja no masculino. No Pan-Americano meio que não adianta, o pessoal da modalidade, o pessoal depois vai analisar, sabe que no contexto mundial, o Brasil é forte somente na América, o que para algumas empresas apostarem no handebol já bastava, porque, talvez, o alcance seja só aqui dentro do continente. Mas falta isso aí. Se o Brasil no feminino que na minha opinião tem mais chances, se ganhar uma medalha olímpica agora, você vai ver o tanto de equipe que vai ter o patrocínio melhor. Isso aí com certeza vai acontecer. Tomara. Eu acredito que vai haver mais investimento se o Brasil conseguir uma medalha.
O pessoal geralmente pára no juvenil, júnior, principalmente porque o país tem poucas equipes. A gente vê o Campeonato Paulista com nove equipes, sei lá quantas equipes, Copa do Brasil, a Liga com sei lá, seis, sete. As inscrições são muito caras, até a equipes de tradição dificuldades para pagar os dez mil reais que é a taxa de inscrição do time na Liga. Pô, dez mil reais. Para um time que não tem muita estrutura, não tem patrocínio, realmente complica.
É aí que o pessoal começa a sair fora, porque se nem o meu time tem como me bancar como vou jogar handebol? A pessoa precisa se sustentar, a família cobra, ele se cobra. Uma coisa que o Morten Soubak (técnico do Pinheiros) falou na pós-graduação que fiz é que, realmente seria válido tentar colocar, por exemplo, mais equipes universitárias, que é onde se pratica bastante handebol, nesses campeonatos. Além dessas instituições terem como ajudar atletas através de bolsas de estudo isso seria legal para atrair mais público, mais investimento, porque é o que falta com certeza. Falta investimento, mas falta investimento por quê? Porque é um esporte fechado, são poucos clubes, e não atingem uma grande parte da população. E onde é que poderiam atingir a população? Principalmente com as faculdades e times de grande expressão, por exemplo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, times que tem torcida e tudo o mais. E aí, eu acho que ia começar a atrair um pouco de investimento, e o pessoal ia conseguir se sustentar através do handebol ou mesmo ver o handebol como uma coisa que pudesse ajudar sua vida, caso de fazer uma faculdade por você estar jogando na equipe da instituição, porque caso contrário, o handebol de São Paulo fica na mão de quatro ou cinco times. E o pessoal já sabe quem que está nas equipes e isso desmotiva a qualquer um, porque tem quinze equipes no juvenil, aí chega no júnior já tem dez. E no adulto, já sabe que vai afunilar e não sabe para onde vai ter equipe para ir. Isso acaba fazendo com que as pessoas desistam mesmo. Na Dinamarca existem quase mil clubes de handebol, em um país com uns 43 mil km quadrados de área e uma população de 5 milhões e meio de habitantes. O estado de São Paulo tem aproximadamente 250 mil km quadrados e mais de 40 milhões de habitantes. Alguma coisa dá pra fazer, não é possível.
P: O que explica a maior possibilidade do handebol brasileiro feminino atingir um resultado internacional expressivo? Podemos considerar as mulheres alguns passos na frente por já terem um número expressivo de atletas atuando na Europa, onde o nível de competitividade é maior? Ou no masculino o equilíbrio entre as seleções é maior, o que pode fazer de um país tanto o primeiro como o décimo colocado em uma disputa?
D M: O masculino eu analiso por vários fatores. Se for analisar a média de estatura do time do Brasil dá 1,86m ou 1,84m, mais ou menos um e oitenta e pouco. Você pega um time da Europa é um e noventa e lá vai rodo. Noventa e quatro, noventa e seis. A diferença física do porte brasileiro e do europeu faz diferença.
Eu ouvi de um amigo meu da seleção que, no mundial eles foram jogar contra a Alemanha, e quando ele olhou pro pivô era o Dragunski, cara, ele tem 2,14… Ai eu perguntei “e o que você faz numa situação dessas?” ele disse assim “Não faz, eles deixam você jogar até a hora que eles querem e não dá pra marcar com tanta diferença de tamanho”. Isso ilustra como a diferença entre peso e estatura tornam as coisas realmente mais complicadas para o nosso masculino.
Além da parte física tem também a comparação entre os campeonatos. Enquanto a Metodista, o Pinheiros, o Imes, a Unopar fazem oito ou dez jogos fortes no ano, lá eles fazem isso em um mês. Porque eles têm vários campeonatos, o nacional, as ligas européias, equivalentes no futebol à Liga dos Campeões e à Copa da Uefa. Quando o pessoal do masculino vai para lá, e eu tenho relatos de amigos, e o esquema de treino é muito mais forte, eles não estão acostumados, os jogos são muito difíceis são muito pegados, é muito mais técnico. Depende do país, um é mais rápido, outro é mais técnico, outro é mais contato físico, mas de qualquer forma complica.
Você colocou que no masculino a colocação entre os 10 primeiros do ranking pode ser indefinida, já que as equipes são tão fortes que qualquer resultado não seria surpresa.
Mas sinceramente acredito que Croácia, Dinamarca, França e Alemanha estão em uma fase incrível. A Espanha é sempre uma boa seleção e a Suécia está voltando com força total.
No feminino, já dá uma facilitada, porque o biotipo da brasileira é tão forte quanto o da européia e algumas brasileiras são até mais fortes que as européias. Você não vê muita diferença entre uma mulher européia e uma mulher brasileira no porte físico, que já se observa muito no masculino. E esse intercâmbio que o feminino está fazendo, lógico, é importantíssimo, pois, não adiantaria de nada essas meninas que estão lá continuar aqui, e fazendo também igual ao masculino, dois, três, quatro jogos fortes em um semestre. Hoje tem muitas mulheres brasileiras no handebol europeu, e eu acho que pelas condições gerais elas têm mais condições de atingir um nível que talvez o masculino não atinja se a gente não fizer um trabalho de superação física mesmo, de achar meninos grandes e de fazer esse intercambio com a Europa.
P: Como pode ser avaliado o trabalho desenvolvido pelos técnicos Jordi Ribeira e Juan Oliver Coronado com as seleções masculina e feminina?
D M: Avalio com bons olhos tanto o trabalho do Jordi frente à seleção masculina quanto do Juan com a seleção feminina. Eu acho que esse intercâmbio é muito importante para nós, visto que os dois estavam em um grande centro da Europa, no caso a Espanha, e tem muito para acrescentar em diversos pontos, técnicos, táticos, gerais…
O Jordi é técnico de uma das melhores equipes do mundo, o Ademar de León, e tem muita coisa a acrescentar não só para a seleção, mas para o handebol do país.
Logo depois que eles chegaram me incomodava ver que os dois, ao contrário do técnico dinamarquês do Pinheiros, o Morten Soubak, não se esforçam em falar nosso idioma.
Hoje sei que isso mudou, mas certa vez fui a um curso no Pinheiros e o Jordi ministrou um dos módulos, fiquei incomodado em ver que muitos dos presentes não entendiam muitas coisas que ele passava e isso de certa forma é estranho, visto que as informações lá contidas não foram compreendidas por todos… Mas perante o que eles vem fazendo para o handebol do país é um detalhe e tenho certeza que a permanência deles ou a vinda de outros profissionais europeus é muito importante para o handebol brasileiro.
P: O sistema de treinos para a Olimpíada de Pequim que vem sendo implantado pela CBHb é o mais adequado para a situação do nosso handebol e para nossas pretensões olímpicas?
D M: A preparação da CBHb é muito boa e acho que eles estão no caminho certo. Realmente acho que devemos ter cuidado com a questão da preparação física, já que encontraremos pela frente equipes como Alemanha e Dinamarca, que são muito boas neste quesito, além de possuírem qualidade técnicas e táticas invejáveis. Nestas primeiras fases de treinamento foi comprovado que as condições físicas dos brasileiros e europeus são muito parecidas e o que distancia mesmo é a estatura e peso.
Em relação ao feminino acho que as condições de igualdade são melhores ainda, visto que além da ótima preparação ainda não temos o problema da diferença de estatura.
Agora as seleções estão em torneios na Europa e Ásia fazendo diversos amistosos e isso vai ser ótimo para que os técnicos ajustem os últimos detalhes para uma boa participação em Pequim.
P: Se você fosse um cartola e pudesse formar uma equipe com os jogadores que quisesse, independente da nacionalidade ou da época em que jogaram, qual seria essa formação?
D M: (Risos) Ia custar caro mas meu time dos sonhos teria 16 jogadores. Realmente é complicado ter que deixar alguns nomes de fora, mas dos que eu já vi jogar esses são os que me impressionaram mais:
GOLEIRO: PETER GENTZEL (SUÉCIA), HENNING FRITZ (ALEMANHA) e THIERRY OMEYER (FRANÇA)
PONTA-ESQUERDA: STEPHAN KRETSCHMAR (ALEMANHA) e LARS CHRISTIANSEN (DINAMARCA)
MEIA-ESQUERDA: NIKOLA KARABATIC (FRANÇA) e PASCAL HENS (ALEMANHA)
CENTRAL: JACKSON RICHARDSON (FRANÇA), IVANO BALIC (CROÁCIA) e STEFAN LÖVGREN (SUÉCIA)
PIVÔ: MAGNUS WISLANDER (SUÉCIA) e ROLANDO URIOS (ESPANHA)
MEIA-DIREITA: OLAFUR STEFANSSON (ISLÂNDIA) e STAFFAN OLSSON (SUÉCIA) PONTA DIREITA: PIERRE THORSSON (SUÉCIA) e LUC ABALO (FRANÇA)
P: O que o handebol significa para você?
D M: O handebol como professor é um meio para a educação completa, aquela que só o esporte nos proporciona. Educar, construir o conhecimento e formar cidadãos através do esporte é magnífico, já que fui educado através do esporte e hoje tenho a oportunidade de retribuir aqueles que me formaram através do meu trabalho, caso do Colégio Integrado Americano e da Metodista, duas instituições a quem sou muito grato e muito devo aos profissionais que até hoje estão lá e hoje são meus companheiros de trabalho.
Como pessoa eu costumo dizer que eu sou louco por handebol assim como quase todo brasileiro é louco por futebol. Desde os 14 anos, quando entrei para o infantil da Metodista, realmente não torço mais para time de futebol algum, somente para a Metodista, sou fanático pelo esporte, assim como fanático por futebol também gosto muito de camisas de times, uniformes de handebol, livros, tudo que é relacionado ao handebol eu tenho ou compro e sou um fanático assumido, e isso é muito bacana porque me motiva em tudo, torna minha vida mais alegre.
No handebol conquistei muitos amigos, amigos de verdade, e acho que é isso que devemos dar valor… Às coisas alegres, que nos fazem felizes e o handebol sempre me fez e me faz muito feliz e tenho certeza que isso continuará sempre.
Sem posts relacionados.











This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.
Deixe seu Comentário